A Busca

Busco algo em algum lugar que não sei onde fica e mesmo assim não sei o que é.

Inquietude por dentro.

Por fora, não pareço estar indo em  várias direções, eu que sempre comando, quero ser comandada.

Fico muito tempo olhando espaços vazios, sem forma, numa busca íntima de intimidades que não sei quais são.

Quero algo assim sem forma.

Sem métrica.

Sem ritmo.

Sem rosto.

Sem verdade, mentira.

Algo inédito!

Inusitado.

Quero que a vida me surpreenda.

Algo novo? Não sei…

Algo velho? Não. Claro que não!

Casa, carro, viagem, gente, jóias, jogo, vivências, segredos, lamentos, dores, murmúrios, amor, silêncio, melodias…

Que absurdo! Mas continuo aflita, o peito travado. Algo busco, o que busco? Não sei…

Seremos todos nós assim?

Você é assim? Sente saudades de coisas que não define? Desejos que não são desejos? Aflições por algo que não é palpável? Nada concreto. Subjetivo, sorrateiro, sombrio, insustentável.

O que é isso?

A vida dobra, redobra e se renova…

A vida, o acaso que descaso.

Saio então nessa busca, nessa caminhada tresloucada, absolutamente perdida, mas caminho, olho em volta. O céu, a lua, o sol… tudo me interessa.

Busco pessoas novas, velhas, crianças, todos me interessam. Pode estar nelas o fim dessa incessante busca por algo, alguém, ninguém, talvez eu mesma.

Acordo triste. Uma tristeza que não está no prazo de validade. Que eu sei que deveria estar descartada, não é mais o tempo de senti-la ou usa-la como argumento para mim mesma, também, mas não busco argumentos.

Mas ela está lá dentro, me dando a sensação de ter perdido algo, que era meu, só meu…

Busco em olhares, em mãos macias que se estendem, me deixo abraçar, me deixo ser acariciada, continuo a busca,. Nessa jornada aprendo, desaprendo, me emociono , me irrito, brigo, discuto… Me canso.

Um pavor súbito. É a velhice que chega.

Indago: – Você sente algo estranho por dentro, como uma fogueira que queima mansamente, mas destrói a mata à sua volta?

As pessoas não me entendem ou não me explico direito. Não explico!

Paciência… Tenho tão pouca. Se é que algum dia tive. Oque será que tanto busco.

Olho casas novas, terrenos vastos, árvores frondosas, flores, cheiro de frutas, cheiro de relva, de montanhas, do mar, de lagoas, poças pelo chão.

O mundo que busco, a vida que quero, onde está?

O tempo passa, e eu estou buscando emoções?Me torno tensa, tudo me irrita, me enfastia.

Durmo, não durmo, quero não quero. O que quero?

Que desassossego, meu Deus!

Vou conquistar algo, vencer um desafio. Vou me livrar de tudo. Vou recomeçar.

Para onde vou? Agora, aqui, nesse momento, daqui até onde nesse espaço reservado só para Deus.

O tempo é como o vento… Só faz passar, passar e passar e passar.

Meu coração teima em bater como quer.

Alma inquieta teima em não desistir.

Vou buscando, vou indo de encontro ao desencontro que provoco em mim. A vida é um rolo, um desenrolo, enrola e desdobra diante de mim.

Arrasto comigo uma multidão de espaços, lugares e coisas que são apenas coisas.

Vou buscando, não desisto.

Será que enlouqueci por dentro?