Cobranças

A cobrança é um processo doloroso. Cobramos dos outros as sensações do nosso próprio fracasso e incompetência. No dia-a-dia, pressionamos as pessoas e nós mesmos de mil formas, com o objetivo de atingirmos um ideal que traçamos para a nossa vida. Há pais que projetam em seus filhos tudo que não realizaram. “Meu filho vai ser o primeiro aluno da turma, um grande cientista, um advogado”. Ou seja: o que na juventude, por motivos pessoais, não conseguiram eles próprios realizar.

Essa forma de cobrança é psicologicamente quase criminosa. Existem mães que chantageiam os filhos e as filhas fazendo-os crer que só serão aceitos se realizarem bem as “tarefas” que foram seus ideais quando eles nem haviam nascido. Quem já não disse: “Quando eu tiver os meus filhos, vou fazer isso ou aquilo e ele vai ser um grande engenheiro, um ótimo oficial, um grande e famoso cirurgião”? É claro que a Bíblia é bem clara quanto a orientarmos nossos filhos no caminho da retidão. Mas não devemos viver a vida de nossos filhos, nem torná-la objeto único do nosso referencial.

Filhos e pais devem tentar entender-se e complementar-se. Um aprendendo com o outro. Porque, na troca, há sempre um crescimento maior do ser humano. A cobrança ou, até mesmo, as expectativas geradas em torno de uma pessoa podem causar decepções profundas. Aí, então, viramo-nos para culpar qualquer fator externo: é mais suportável do que encararmos a dor do fracasso.

Ninguém pode conquistar o que não lhe pertence, o que não está dentro dos nossos planos. Podemos fazer nossos filhos cumprirem o que traçamos para eles ou não, mas o fato de um filho preferir ser um vendedor ou a filha, uma secretária, não deve ocasionar a eterna cobrança “você não quis fazer faculdade, agora podia ser isto ou aquilo como eu queria”.

Há secretárias maravilhosas, insubstituíveis, que são uma bênção para as firmas em que trabalham. Vendedores tão capazes que inspiram livros como O Maior Vendedor do Mundo, porque vender é uma arte das mais difíceis. É preciso amar a profissão que escolhemos para o curso de nossa vida. Seguir o ideal que está dentro de nós, e não querermos, apenas, agradar “à família” e sermos, nós os frustrados.

A compreensão de que “ninguém vive a vida do outro” vale, também, no relacionamento marido e mulher. E, num casamento, o equilíbrio depende muito do casal. Viver junto e, ao mesmo tempo, dar espaços entre si para terem vida própria é primordial. Embora cúmplices e amigos, os cônjuges devem ter a independência de seguirem sua vida profissional e pessoal, continuando, apesar de tudo, a ser uma dupla que se ama e se respeita.

Há mulheres que cobram do marido o fato de ficarem em segundo plano, cuidando da casa e dos filhos, enquanto o marido se realiza em sua profissão. No princípio, quando os filhos exigem uma constante supervisão da mãe, pode a mulher suprir suas necessidades dedicando-se à árdua tarefa de ser “dona-de-casa”. Mas, e depois? Os filhos adultos, a casa arrumada, e “eu, o que faço?” É preciso fazer uma colocação se ajustando o que o casal decidiu: “Você vai à luta no mundo. Eu fico.” Ninguém obriga uma médica, uma advogada ou uma comerciante a não sair para a luta, se elas realmente desejarem seguir sua carreira.

A frustração de não haver conseguido seguir seu rumo profissional por culpa dos filhos, da casa ou do marido é uma forma de deteriorar um relacionamento, porque pode gerar, em alguns casos, mágoa e a sensação de se ter sido injustiçada e usada. Começa a cobrança de novo em forma de sentir-se na obrigação de clamar por justiça, fazendo, muitas vezes, com que surja na família. No marido e nos filhos vem a sensação de “consciência pesada”: “Puxa, mamãe sacrificou tudo pela família. Ela podia ser uma grande comerciante, uma ótima psicóloga…”

Esta forma de culpa gera cicatrizes profundas na alma e leva anos para se esgotar em longos aprendizados. Até se fechar com a compreensão de que, se houve perda foi por algum motivo necessária. Foi uma escolha, uma decisão pessoal tomada com o consentimento de todos e a aceitação da pessoa que resolveu “sacrificar-se” em prol de uma unidade e do melhor para a vida em família. Nunca reclame de que você recebe pouco: foi você quem apostou no muito.