Cotidiano

Hoje me sinto só, abandonada… Mas, por que? – me pergunto ansiosa – O que mudou? Ou o que não mudou?

Abro as portas da varanda, cheia de plantas tão viçosas, tão alegres em seu suave balançar ao vento.

– Por que me sinto só? Uma solidão estranha, solidão que vem de dentro, recolhida e encolhida em um recôndito da alma.

É difícil me livrar dela, gruda em mim, viscosa, me traz lembranças… Não quero me machucar – penso enquanto me espreguiço ao sol.

Por que abandonada? – me questiono a sério.

Você sabe o que é abandono? – me pergunto .

Não seja tão mal agradecida, mas…

Meu Deus, eu me sinto hoje nesse dia de um céu inexplicavelmente luminoso e belo com um sol suave aquecendo meus pés – abandonada? – Por quem? Ou por que?

Um sentimento de isolamento toma conta de mim, me sento em um canto sem nenhum encanto, um desencanto – me sinto muito só.

Mas meu marido está em casa, é claro, no computador, sempre meio ausente, mas fazendo de tudo para parecer presente, eu o amo assim, do jeito que ele é …

Ouço o barulho das empregadas na cozinha. Ouvem o rádio, sorriem alegres, falam da vida alheia. São tão reais como o cheiro bom do feijão cozinhando, cheiro de carne seca e louro.

A casa está viva, cheia de sons. Meus dois netos brincam na grande varanda sombreada e cheirando a jasmim, o pé está todo florido. Cada um deles está em seu mundo. Minha neta, Marininha, está brincando de ser médica. Meu neto, Breno, está fingindo ser um super herói que não sei qual é.

Por que então me sinto só?

Olho-me por dentro, a solidão é tão complexa. É uma solidão de dentro pra fora. Sinto-me só porque quero. Vou reagir…

Não faço o tipo de sofrer sem saber porque. Não estou só, não fico nada sozinha – repito andando pela casa.

Meus netos me olham desconfiados.

  • Vovó, você está pensando o quê?

  • Tá falando sozinha, vó?

Sorrio, faço um ar de mistério.

  • Conta, vovó, conta.

  • Você vem brincar com a gente?

  • Você ta triste, vó?

  • Não, não, eu estou pensando na vida. Esperem aí que eu já volto.

Um vazio no estomago, uma sensação de ir sem volta, o que será isso?

Tomo um banho. Quem sabe passa?

  • Maria, traz um caldinho de feijão. Minha mãe resolvia tudo com caldo de feijão.

  • Toma, menina, feijão tem ferro. – Sou louca por feijão!

Suspiro, ligo a TV. Tomo meu feijão amigo, mas a sensação de abandono não me larga.

Quem será que abandonei? O que será que eu quero de volta?

  • Vovó, o bolo ta pronto! Vem cortar com a gente.

  • Tá quente, mas sopra que vai esfriar.

Olhinhos que brilham, mãozinhas meladas de geléia e de mel, cheirinho de criança suada. Meus netos! Sempre pedindo, criança não é fácil, mas sem elas, a vida é nada…

Almoço frente aos dois, Marina e Breno.

  • Tão cheirando a cachorro molhado. Já para o banho!

Fecho os olhos, só um minuto. Vou me sentir melhor. Tudo na vida dá e passa.

Acho que estou ficando é velha, que chato!

  • Vem, gente! Vem, coração miudinho. Vamos dar banho neles. Vão ficar cheirosinhos.

  • De espuma, vó? Na banheira grande do seu banheiro?

  • -Não molha muito o chão e não fiquem todo enrugados.

  • Muito tempo na água vão ficar tossindo.

Deus!! Estou ficando igualzinha à minha mãe!

Você já se sentiu assim? Uma sensação de abandono, de coisas que estão por vir, de momentos que ainda não passamos.

Gente é mesmo muito esquisita…

Que vontade de dormir em uma rede. Que preguiça viciosa de continuar vivendo.

Queria voar. Deve ser bom voar no vento, leve como um pássaro. Ver as coisas por novos ângulos. Ver tudo com outros olhos, sobre as nuvens. Respirar um outro ar, um algo que ainda não experimentei.