Quem é essa mulher no espelho?

Há dias em que, teimosamente, minha mente divaga nostálgica pelas janelas da memória.

Recosto-me no sofá da sala, respiro fundo, relaxo o máximo que posso, coloco uma música suave, quase um sussurro, e lá vou eu viajar de volta no tempo.

Vejo-me em uma encruzilhada da vida, quando me dou conta que a mulher de meia idade está diante de mim e não há como não admitir o fato que ela vai substituir a jovem mulher. Resisto um pouco… é duro saber que é algo consumado, você não ser mais considerada jovem. Minha cabeça pode sentir-se com 30 anos, meu corpo é ainda esguio – mantido à duras penas, com alguma ginástica e muita dieta… Mas a verdade é obvia demais. O espelho mostra claramente o passar do tempo. Marcas, rugas e, principalmente, os olhos me dizem que uma nova fase e um novo tempo vão começar para mim. Estou entrando na meia idade.

Estranhamente, sinto uma liberdade nesse instante. Vejo com clareza um novo ser humano me sorrindo no implacável espelho matutino.

Existe beleza sempre, em todas as idades, e se de todo não puder conviver com minhas rugas, faço uma bela plástica. Está decidido!!

Já se passaram 10 anos desde esse íntimo encontro meu com minha imagem real e a que eu acreditava ainda ter. Agora posso sorrir tranqüila, adquiri uma grande segurança interior após ter vencido o primeiro impacto de descobrir-me envelhecendo…

Lembro-me de me perguntar como pude ter dormido sentindo-me jovem e acordar e me deparar com uma outra mulher muito mais velha me olhando no espelho? Me perguntar, surpresa: “Quem é essa mulher no espelho? Será que é assim com todo mundo?”

A gente demora em se dar conta que já não é o que a cabeça continua pensando ser e por isso continuamos felizes da vida. Aí, descobrimos subitamente que não somos mais jovens. A cabeça é totalmente virtual, o espelho é quem “fala” a verdade. O que nem sempre é fácil de ser admitido.

Pode ter sido um choque descobrir de repente o que, certamente, vinha acontecendo há tempos. A gente se acostuma a ver o próprio rosto todo dia e nem nota uma preguinha aqui, uma ruguinha lá…

Mas entre o susto e o reconhecimento íntimo, pude assistir ao nascimento de uma outra mulher.

Posso me ver inclinada sobre o pequeno lago em frente à minha casa, sentindo o hálito puro e fresco que sobe da placidez imóvel e cristalina da água, vendo o reflexo do meu rosto. Volto a sentir o vento e o sol acariciando a minha pele. Estou quase que totalmente feliz. É um momento só meu. Há algo de uma profundidade imensa nessa despedida da juventude que se foi.

Lembro-me da serenidade que senti ao aceitar o fato de que envelhecer é apenas mais uma das muitas peças que a vida nos prega.

Soube, então, que precisava investir em outras facetas de mim mesma. Decidi que seria uma senhora elegante e não iria me descuidar, prometi solenemente. E, acima de tudo, me conscientizei de que a menina que pensava ser, já não aparecia mais no meu rosto.

Sempre tentarei mantê-la viva em mim, sentindo a alegria de continuar produtiva, mantendo-me jovem interiormente, intocada pelo implacável passar dos anos, porque, certamente, o espírito jamais irá envelhecer.

Abro os olhos… Sorrio para mim mesma. Estou de volta ao tempo real. Há muito, descobri o segredo de não ter medo do espelho, de não estar constantemente preocupada em parecer mais jovem. Basta apenas acreditar e sentir de verdade tudo aquilo o que vivemos.