O Silêncio

 

Eu quero o silêncio de coisas não ditas, de pensamentos vazios, de vácuos. O silêncio de segredos, de coisas nunca reveladas.

O silêncio do alto dos montes, de lugares frios, desabitados; de fábricas desativadas.

O silêncio dos picos das montanhas de neve, vastos campos brancos ao amanhecer.

Eu quero o silêncio das bibliotecas vazias.

O silêncio dos córregos subterrâneos. Dos becos vazios, da escuridão.

O silêncio que deixa a gente ouvir o murmúrio do mar na noite escura cheia de estrelas silenciosas – brilhantes –

O silêncio dos cemitérios, das vagas nuances dos fantasmas na solidão.

O silêncio das almas que já se foram. Poder ouvir as batidas do meu coração.

O silêncio das casas vazias; dos casais que nada mais têm a dizer um ao outro e assim vivem, no silêncio, em seus próprios mundos.

O silêncio que se faz antes da tempestade quando vem chuva, e chuva grossa.

O silêncio de quem precisa falar mas fica em silêncio: não há ninguém para ouvir. Aprender a ouvir a sabedoria do silêncio, o que ele diz mesmo que a gente não queira.

O silêncio da dor tão profunda que nem respirar se consegue.

O silêncio dos vales, das ravinas. Do vazio da imensidão das dunas do deserto, a sabedoria milenar das areias sem fim onde o silêncio absoluto dói.

O silêncio depois de ouvir algo que nunca se pensou ouvir e por isso – o silêncio –

O silêncio de querer e não poder ouvir o som de vida, e viver num mundo tão cheio de sons.

O silêncio do amor não correspondido, totalmente devastado… amor terminal, prestes a morrer.

O silêncio depois do amor, do verdadeiro amor, quando tudo foi dito em silêncio porque não há nada a ser dito, só mesmo o silêncio.