Odete

Eu a vi em parte, meu coração a viu por completo, enxerguei além dela por dentro dela.

Sua alma limpa e singela como de uma donzela que entra em seu outono, o que a torna mais bela.

Alta e esguia como um salgueiro que o vento dobra mas não quebra, forte, serena, e absolutamente sensata.

Minha alma sempre inquieta e buscadora, meu corpo agitado, minhas mãos que sempre se mexem, eu-toda-plena, em constante movimentação interior e exterior, maravilhou-se com Odete. Apesar de ser muito, cobria-se com uma sombra de nada sou… Pois quem é não se dá conta do que é.

Mas não dá para esconder o que se é, na intimidade e em longas conversas sua voz e atitudes me mostram quem ela é.

Na verdade, ela que recém entra em seu outonal brilho estancou o meu inverno que chegava sem aviso.

Seus olhos cor de mar, cor do céu, de uma cor que não existe, são sombreados por uma doçura que não consegue deixar de ser sentida.

Toda ela respira respeito, amor e devoção. Se alegra com a alegria dos outros, chora com os amigos, sabe consolar. Logo ela que tanto precisa de consolo.

Como dizer ao mundo ao meu redor, minha perplexidade em conhecer alguém tão extraordinário que não sabe que é assim tão diferente de toda essa gente que me cerca, que me adula, me usa, que me mente e me desmente, que me afaga e me maltrata. Gente que acende e apaga minhas ilusões, meus sonhos, minha vida. Me apego a quem não merece, mas me apego assim mesmo, demoro a me desapegar de gente, de bichos, de coisas…

Nem mesmo a tragédia maior e a dor da saudade a amarguraram.

Há uma doçura em seu desapego a tudo. Seu abandono à vida que vive sem ela saber.

Há um encanto no seu desencanto por tudo que parece tão sem cor – em preto e branco.

Odete vive de esperança, espera uma surpresa, um presente de Deus – seu filho.

Me dá uma lição de vida, de liberdade. Mesmo confinada, não a aprisionaram. Dentro dela vive a linda mulher que minhas mãos vão libertando lentamente.

Sinto-me feliz de vê-la, de ouví-la, de ver suas mãos fortes fazerem tudo sem parecer que nada faz.

Odete, de onde você veio para iluminar assim tudo à sua volta e me me ensinar tanto sobre tudo, sobre paciência e resignação? Um saber tão límpido e quase juvenil. É pura inocência…

Que paz você traz para todos que à sua volta se voltam para buscar. Como nos dá paz nessa ansiedade que tão bem esconde.

Da sua vida pouco fala, nunca reclama mesmo quando a dor a corrói com o ácido da incerteza: Onde está você, meu filho?

Mas o amor é um dom seu, e ela ama a neta menor com ternura e com sua maneira única une e agrega a todos nós.

Dizer que a amo como a irmã que não tive é pouco e não diz o que sinto.

Eu a amo como amaria um anjo se eles aqui vivessem, e a quero como uma filha – o coração escolheu.

Será que a mulher que há 30 anos não cortava seus escuros cabelos e escondia do mundo toda a sua esplendorosa pessoa é um presente de Deus para mim, para minha família?

Eu a compreendo totalmente, a respeito e gosto de tê-la perto em seus silêncios longos e seus segredos que seus lindos olhos revelam, mas sua boca não conta. Minha alma descobre e tenta traze-la para fora, para que a luz de dentro dela brilha seja um farol em minha caminhada.

Ela tão serena, eu tão agitada. Duas almas tão diferentes. Onde foi que a Deus agradei tanto que Ele me presenteou você?

Preciso ouvir seu falar, seu sotaque cantado, arrastado de sua terra natal. Meu coração vai chorar na sua ausência.

Odete precisa partir, ela tem que buscar o veio da sua dor. Deve ir para achar-se e conseguir a paz para si mesma.

Vai ficar um vazio em mim, precisamos tanto de você…