Saudade

Ela que se esconde nos vãos dos porta-retratos, atrás das janelas, em uma música, nas sombras obscuras do entardecer. Apaga o sorriso, sufoca a alegria, trava a língua, amarga a boca. Não existe saudade doce. Ela é a mãe da amargura.

Brota de dentro, rompe as comportas mais altas e vaza lentamente pela menor fresta. A alma se perde no vácuo da dor. Ela insiste em terminar com a paz, a paz interior.

Não se aquieta, não se vai, não nos esquece; ao contrário, está sempre pronta a mostrar que está ali à espreita de um momento – só um momento – em que a alegria venha nos visitar.

A saudade é a caverna da alma, o lugar da dor imensa que, como ondas, nos afoga no mar que ela navega. Sombria, soturna, nos inunda com suas lembranças – mil lembranças – não se pode escapar.

Se a enfrentamos, nos deixa exauridos, entorpecidos, letárgicos. Deixa um gosto de água salobra na boca, um suor frio nas mãos, no meio do peito, na nuca, na fronte.

A saudade sai sorrateira, levando pedaços de você, da sua vida, que não podem ser resgatados.