Sol de domingo

É domingo. Faz um dia claro, vibrante com um sol morninho como os dias de inverno aqui no Rio sabem ser.

A brisa é suave e a cidade, tão linda, parece fazer uma tentativa de reconciliar-se com sua gente, que não é mais suave em quase nenhum aspecto e pouco a pouco perde o peculiar humor.

Sou apaixonada por bichos. A variedade enorme de cachorros que passeiam no calçadão da praia chamam a minha atenção.

Bicicletas, patins, skates. Gente em profusão… e lá vão os cachorros, quase todos de raça, infelizmente. Eu, particularmente, sou grande admiradora dos vira-latas. Observo que os donos dos cães são bastante ciumentos quanto à aproximação de outros caninos Uns são até meio agressivos e imediatamente os põem no colo. Quando cabem, é claro!

Todo cachorro tem algo do dono: no andar, na simpatia, na timidez, no alvoroço, ou na tranqüilidade. Não sei não, mas fico sentada no meio-fio, por onde não podem passar os carros, porque aos domingos a rua é da gente ou de todo mundo: gente e bichos.

Lá vem o mendigo. Eu o reconheço, mora na Praça Nossa Sª da Paz, mas agora que ela foi murada com imensas grades ele e mais outros mendigos moram do lado de fora, com crianças, panelas, cadeiras e seus adoráveis vira-latas. Ele vem fielmente escoltado por sua cachorrinha. Ela tem uma cor indefinida (entre bege e marrom), algo assim como havana-dourado, uma cor que só os vira-latas possuem.

O mendigo é alto, magro e vive de cuidar dos carros que estacionam na praça. Tem um andar meio de dançarino: rápido e leve. Seu aspecto não é dos piores. Pobre, sim, mas há algo gentil em todo ele, uma alegria inocente dos puros de coração.

Posso sentir que é um homem bom. Sua cachorrinha é um show. Porte pequeno para médio, é esguia. Com o rabinho em pé, olha o dono e vai cruzando a elitista Avenida Vieira Souto com um ar de dona do mundo.

É um caos. Os cachorros em si não são racistas, e até gostariam de uma cheiradinha de focinho na faceira vira-latas, mas os donos… Um horror, são Poodle, Pinsher, Yorkshire Terrier, Beagle e uma infinidade de cãezinhos rapidamente levados ao colo, como se o fato de Laika ser cachorra de mendigo fizesse o cachorro deixar de ser o que é na sua essência. Há, também, os cães de ataque, verdadeiras armas se em mãos inescrupulosas, Roitteweiler, Pastor Alemão, Dobermann, Fila Brasileiro, e outros que acompanham o olhar de desdém do dono e aguardam uma ordem tipo: “Pega! Pega o vira-lata do mendigo!”

A cachorrinha, nem aí, vai trotando feliz na frente do dono. Só ter um dono já é para ela uma felicidade.

Passa por mim e não resisto. Quero passar a mão nela. O dono estanca e me olha desconfiado. Sorrio e acaricio a vira-lata.

– O nome dela é Laika – e me diz, cheio de orgulho. Tem 1 ano. Achei no lixo. Cuido dela como filha. Eu sou louco por cachorros.

Mais que depressa, respondo:

– Eu também.

– Cachorro de rico é diferente, a Laika não sabe que é pobre, e por isso tem essa pose toda. Risos.

– Laika, você não é pobre. Você é rica, tem um dono e o maior charme, digo, entre risadas.

Laika me lambe agradecida, abana o rabo, o olho no dono, o maior amor. Faz-me festa, e olho no dono… o tempo todo…

Passam alguns cães, olham-me com suas coleiras chiques e caras. Nenhum, mas nenhum mesmo, tem o brilho da Laika. Todos devem ter pedigree. Ter dono, para eles, é normal. Nunca foram abandonados. Valem muito dinheiro, e alguns são só para dar status.

Laika é o tesouro do mendigo!

Ele se despede. Me dá adeus, abana a mão e me chama de tia.

Até, tia, vou indo… Vem, Laika.

Laika vai… contente da vida no domingo cheio de sol. Esse encontro fez meu domingo parecer menos rotineiro e coloriu meu cotidiano. Definitivamente, gosto de bichos.

Suspiro e vou andando. Começa a esquentar neste domingo tão lindo. Que bom é sentir o sol deste domingo!