Solitários ou em bandos

Há pessoas que conseguem viver sem ter uma grande necessidade de companhia. Algumas são, realmente, o que se pode definir como solitários. Outras aprendem a viver com a solidão por imposição da própria vida, desilusões e talvez, quem sabe?, desgostos…

Eu não sei conviver com a solidão. Não sei ficar só por muito tempo. Gosto de ter companhia. Admito que sou uma pessoa coletiva. Multidões não me assustam, não me sinto mal com muita gente em volta. Gosto de viver no redemoinho de uma grande cidade, ver gente andando, a confusão de vendedores, ambulantes, os cheiros especiais que uma cidade grande como o Rio tem. Cheiro de mar, de sal, de condimentos, milho cozido… Não sei definir que cheiro tem o Rio, mas sinto o cheiro da cidade em cada lugar que vou, agradáveis às vezes, insuportáveis em outras. São o mau cheiro do lixo, esgotos, pobreza; mendigos e doentes que vivem nas ruas. Mesclando tudo, o aroma me é tão familiar, que sinto saudades se não o sinto no meu dia-a-dia.

Ao pensar nas centenas de pessoas que vivem aqui comigo, admito uma secreta admiração pelas pessoas capazes de bastarem-se a si mesmas. Há pessoas que, no sofrimento e na dor, recolhem-se a uma solidão e a um mundo interior que podem curá-las ou destruí-las. Que são contidas até na alegria, que, muitas vezes, é secreta, só delas. Não são anti-sociais. São pessoas até bem agradáveis; conversam, têm filho, casam-se, mas são, na minha opinião, levemente “altistas”. O mundo real é um, e elas possuem um mundo que é só delas, onde se escondem, se refugiam. Não sei como é, porque faço parte do mundo da coletividade. Tanto no sofrimento como na alegria, procuro os amigos para dividir. Se tenho medo da solidão, não posso afirmar, mas que não faço programas solitários posso, com certeza, dizer. Sozinha, nem pensar.

É reconfortante, para mim, ouvir conselhos, mesmo que não vá seguí-los. Gosto de meter-me na vida das pessoas queridas. Abro as portas para que entrem na minha casa, na minha vida, onde, sem elas, não poderia, de forma alguma, entender estar aqui. Quando uma pessoa me diz: “Fui almoçar sozinha. Fui ao cinema sozinha. Fui passear sozinha”. Dá-me a sensação de que elas têm algo de que eu gostaria de ter. Fico perplexa porque elas conseguem administrar-se muito melhor sem ajuda ou sem a companhia de alguém. Mas como seria desagradável o mundo se todos fossem tão auto-suficientes a ponto de não precisarem estar próximo de alguém para sentirem-se completos, como é o meu caso.

As pessoas solitárias me atraem muito. Acho-as meio sinistras, misteriosas, interessantes. Sei que, no mais íntimo delas, pessoas com o temperamento como o meu, que precisam de gente para viver e conviver, são, também, inexplicáveis e fascinantes para os solitários. O ideal, por certo, deve ser o meio-termo. O equilíbrio da normalidade, mas gente normal demais, de um modo geral, é muito sem imaginação. Fico com os extremos, porque são sempre as pontas de um fio imaginário que fazem das pessoas algo tão especial no mundo.

Os que criam, os que são capazes de fazer, criar e ver coisas que enriquecem o mundo como músicos, poetas, pintores, enfim, os que reeditam o mundo, vivem, certamente, em uma dessas pontas. Solitários ou em bandos, conviver com pessoas é estar-se aberto a aprender, sempre, até ao fim.