Faço de conta… que não sei contar
Me assusto! Estou em plena terceira idade, sou uma sexagenária, acabo de me descobrir sessentona.
– Que absurdo, me sinto com dez ou quinze anos a menos. Ainda mais para quem, como eu, nunca se viu fazendo sessenta. É mesmo um susto.
Sessenta… Com direito a passe livre nos ônibus e o título fatal de idoso. É duro, mas só há duas opções: ou você fica velho, ou morre cedo.
Tem gente que empaca nos 58, leva uns cinco anos para fazer 59. É aquele tipo: “Faço de conta que não sei contar…”
Mas o corpo reclama seu uso ininterrupto. Dói aqui, dói ali, mas o pior é não enxergar sem óculos. Haja escravidão!
Cadê meus óculos? Onde botei os óculos? – Dependência…
Minha filha, amigos e funcionários tramam uma festa.
Que idade linda!
Sessentona e inteira…
Trabalhando e produzindo.
Eu não acho nada tão fabuloso ser carimbada de “idosa”, fico assustada de ser tratada com uma certa deferência meio que discriminatória, mesmo que discreta, da galera que é jovem e se sente dona do mundo, da vida, de tudo…
É justo que ocupem os espaços. É o que se espera, é a vida cobrando vida, sangue novo, renovação…
Nunca me haviam chamado de velha, como se isso fosse algo vergonhoso, que desse para esconder ou devesse ser motivo de:
– Não posso porque não tenho mais idade;
– Não vou porque não tenho mais idade;
– Bem que eu queria, mas não tenho mais idade;
– Não vou conseguir, não tenho mais idade;
Tudo porque uns meninos mal educados, pré-adolescentes me empurraram e quando eu reclamei se tornaram agressivos e insultosos. Suas vozes já eram um insulto:
– Sua velha! – Me assustei.
– Velha? Eu?. Trabalho muito, sou produtiva, nem vejo o tempo passando, mas passou, rápido e rasteiro, cobrando seu preço.
O punhal das jovens línguas, meio que debochadas:
– Sua velha! – como se fosse algo horroroso – como se eu devesse tomar cuidado para não contagia-los – me atravessa os ossos e bate fundo no ego que reclama:
-Velha, eu? Mas, como? Quando foi que eu fiquei com esse rótulo?
Não vou permitir. Sei que não devia, mas o desaforo é grande. Lá vai a resposta:
Fedelhos mal educados!
Fedelhos… Saboreio a palavra.
FE- DE – LHOS! – sorrio mordaz.
Parece incrível, mas eles, que usam sua juventude como um álibi para seus erros e grosserias, mostram-se ofendidos.
Fedelhos, não, tá bom! – E me promovem a coroa.
Tudo isso no elevador, apertado e pequeno. São como pequenos sátiros a me penalizar por não ser mais jovem.
A porta abre, estou roxa de raiva. Fedelhos horríveis.
Eu podia ser avó de vocês.
Mistério.
– Avó, não. Você é velha, mas nem tanto. Coroa burra! – A porta se fecha bem no meio da nossa raiva.
A gritaria atrai os seguranças e as pessoas que circulam nos corredores.
O que foi? O que houve? A senhora está bem?
Claro que estou, só meu ego é que sofreu um colapso. Já me recupero.



nice
vc expressou tudo e pouco mais o que me sinto entrando no sessenta . parabéns