Entardecer
O dia amanheceu lusco-fusco. Não é possível prever se o sol vai ou não brindar-nos com seu brilho. Afinal, em uma cidade serrana o tempo é sempre imprevisível.
Depois de muita relutância e brigas com as nuvens, foi com alguma ajuda do vento que sua majestade surgiu claro e encheu tudo com sua alegria. Pincelou de cores as montanhas, e o verde ficou mais verde ainda.
Sento-me junto ao pé de pitanga, que está carregadinho. O ar está pesado com a mistura do perfume das flores. As abelhas fazem a festa nos pés floridos da jabuticaba. Eu, que sou nascida numa cidade de concreto, encanto-me com a simplicidade da natureza.
Os pássaros, então, são lindos, livres, soltos… Não os identifico, porque quando eu era menina já não havia pássaros nas árvores do Rio, só os pardais e pombas-rolas. Mas a caseira diz-me que são Quero-queros, Bem-te-vis e, é claro – esses eu conheço bem – Beija-flores de várias cores e tamanhos.
Gente de cidade se encanta com coisas simples, como matinhos floridos que nascem entre as pedras ou a maneira gentil como as flores das trepadeiras deixam cair suas macias pétalas uma a uma…
Fico perdida examinando as formigas em sua caminhada “nazista”.
Apesar do medo, vou olhar os marimbondos fazendo suas casas entre as árvores floridas das bougainvillées. Que cores! Vai do rosa-clarinho ao roxo-escuro. Só Deus mesmo para imprimir tanta beleza.
Sinto paz. Vejo que, na realidade, somos muito mais ligados do que gostaríamos de ser às coisas simples que fazem parte da “gente de cidade pequena.”
Uma preguiça saudável envolve tudo quando a tarde cai. É dia claro, ainda. Mas o galo do vizinho já faz cocorocó. Minha cachorra não me larga um minuto, compartilhando de coisas que só ela sabe: segredos de bicho, que gente quase nunca entende. O nevoeiro da serra vem descendo como flocos de algodão-doce. Tudo fica irreal.
A casa antiga, cheia de dignidade, é envolvida pelas brumas e parece flutuar no jardim florido. Os arcos antigos e a varanda, cheia de samambaias, tudo vai entrando nas brumas e ficando distante.
Que cheiro bom de jasmim…
Sinto frio. Vou voltando para a casa, e o silêncio é tanto que me ensurdece. Posso ouvir sons que nunca ouvi.
Já está escurecendo e o céu vai perdendo o lindo tom alaranjado que sobressaía entre as montanhas, no vale lá embaixo. Tudo está obedecendo ao relógio da natureza. Hora de ir para casa, devagar, sem pressa. Cavalos, bois, gente de todo o tipo vão caminhando, saindo do campo. É a hora do jantar.
Vou chegando, eu e Samantha, minha cachorra, vamos dormir cedo. Amanhã é outro dia, outra chance de aprender coisas simples que fazem parte do milagre que é viver ao lado de gente que não desaprendeu a amar.


